Angie: viagem a uma América claustrofóbica

Angie, de Leonardo Costaneto, surpreendeu-me positivamente. E causou-me certo incômodo e estranhamento: função precípua de todo fazer artístico, o resto é mero entretenimento, armazém de secos e molhados e escrituração bancária. Começo esses comentários, ainda sem destino editorial selado, escrevendo em primeira pessoa, mas, não para ser confessional. Desejo falar de uma experiência de leitura que só pode ser erguida dessa forma. Se tiver paciência, o leitor compreenderá. Fui preparado, desde a orelha do livro, para ler uma espécie de On The Road, do Kerouac. Ou, sei lá, um pequeno De Moto pela América do Sul, do Che Guevara. Antes mesmo da orelha, fiquei surpreso pelo opúsculo que recebi pelos correios. Era um livro pequeno demais em tamanho físico para um diário de viagens. Que capacidade de síntese extraordinária terá Leonardo Costaneto para perambular entre Buenos Aires, alguns lugares do Brasil, Colônia do Sacramento, Montevidéu e outros lugares, em tão poucas páginas? Com a voz de Mick Jagger nos ouvidos da alma, eu perguntava: onde isso tudo irá nos levar? Comecei a perceber que a viagem não seria por meras estradas e, sim, pelos territórios anímicos de nossa gente enclausurada nesta longa América, logo na dedicatória: “Para Joaquim, meu pai.” E depois do título, Buenos Aires, encontrei-me mergulhado em um típico quintal rural de uma família negra e pobre em algum lugar do interior do Brasil. Mas, a história de pobreza, rodeios, cavalos xucros, amor, ilusões de sucesso e morte, poderia estar do lado de dentro de qualquer das fronteiras que aparentemente nos dividem. Logo, com fronteiras anímicas e geográficas claramente esgarçadas, segui a viagem percorrida por nossa gente mestiça em busca de um mínimo de dignidade para poder viver. Eu percebia certa unidade, mas, não sabia mais se estava lendo um livro de contos ou uma história completa com certa unidade. Eu ficava aqui a imaginar quando iriam se encontrar favelados, peões de rodeio, motoristas de Uber, michês, cozinheiras, tanatologistas, descendentes de homens e mulheres que foram escravizados, indígenas aculturados, casais que “iam trocar carícias e tocar de leve o dorso nu das estrelas”, sugar babies e sugar daddies, balconistas, artistas, boêmios… E eles se encontram na alma e nos textos latinos de um escritor apaixonado por uma prostituída e perdida jovem anjo americana: Angie. Todas as estradas percorridas e seus personagens aflitos se encontraram, então, na breve carta para um longo amor. Um amor inicialmente comprado, para alguns, errado, um amor marginal. Porém, como escreveu Gilberto Gil, em Drão: “o verdadeiro amor é vão”. E o amor carnal por Angie se fragmenta em uma narrativa amorosa e solidária sobre todos nós, marginais e prostituídos “mestiços neurastênicos do litoral” e de nossos muitos interiores. Percebe-se que o suposto, mas, nunca explicitado, personagem-narrador, adquire uns certos ares aventureiros de Hemingway. Senti certo orgulho de ter percebido a presença do gringo no texto antes mesmo de seu nome aparecer por escrito. Mas, nem o texto é um “road book” e nem o narrador é um aventureiro e um escritor interessado, como Hemingway, em nossas peculiaridades. O texto é de um de nós e é uma carta de amor: a viagem é por uma claustrofóbica América da qual não podemos escapar. Porém, como diz Mick Jagger a sua musa Angie: “You can’t say we never tried”. E continuamos tentando. E amando prostitutas e bandidos, e escrevendo canções desesperadas. O texto, tinha, então, o tamanho possível e exato. E me trouxe muitas lembranças e muitas canções. Parafraseando o que escreveu certa vez Belchior: “uma balada argentina me vai bem melhor que um blues”. Por isso, quero encerrar minha narrativa sobre Angie, de Leonardo Costaneto, não com uma canção dos Stones, mas com um trecho de uma canção cantada por Fito Paez, que eu também dedico a seu Joaquim. E a meu pai portuga, Luiz. E à minha mãe Azuréa, Zuka, mestiça de todas as cores e raças que aqui se caldearam. Por isso, entendam, eu não poderia deixar de escrever em primeira pessoa do singular. Lá vai o Fito Paez: “Luna de los pobres siempre abierta. Yo vengo a ofrecer mi corazón.”

Fui ler um livro de estrada… e li uma carta de amor. Lucrei.

Claudio Carvalho

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