Dicas de livros: Literatura em tempos de crise e esperança

Segue aqui uma lista com a sugestão de autoras e autores, contemporâneos ou não, a maioria nacionais, que abordam algum aspecto hoje da realidade brasileira.

Mesmo em dias tão turbulentos, temos que valorizar o papel das narrativas, da meditação, do olhar para o outro e para nossos conflitos mais profundos de nossa época. Listo abaixo algumas leituras do semestre e autores que têm se destacado, e que me marcaram.

Cartas a uma negra, de Françoise Ega.

A fratura exposta do colonialismo europeu. Se a experiência de leitura de Carolina Maria de Jesus é impactante, seus relatos da vida de uma mulher negra na periferia de São Paulo nos anos 60, compara-se a esse diário de uma mulher negra e caribenha que, ao saber por meio de uma revista sobre a vida de Carolina, passa a dialogar com ela em seus textos, imaginando o que seria a interlocução entre duas mulheres negras, uma brasileira e uma martinicana. Ega é escritora, luta pela publicação de seus livros, enquanto enfrenta a exploração como trabalhadora doméstica na França. Desse choque de visões, essa autora produz um relato único e poderoso.

Vista chinesa, de Tatiana Salem Levy.

A autora relata a marca perene, a culpa e a convivência que a personagem desse romance deve conviver após um estupro na Vista Chinesa, no Rio de Janeiro, em plena época de Copa do Mundo e ainda em um Brasil de expectativas e possibilidades. Tudo vem ao chão e esse é o terreno que ela deve aprender a conviver, uma vez que o criminoso não é encontrado.

Angie, romance de Leonardo Costaneto.

Romance curto e, ao mesmo tempo, dividido em capítulos cada um com força própria, de Leonardo Costaneto, autor mineiro, professor e editor da Caravana editorial. Um roadbook entre Buenos Aires, Montevidéu e Colônia Sacramento, narrado em tom de prosa oral. E mineira. De Minas para o mundo.

Trama de meninos, de João Antonello Carrascoza.

São contos extremamente bem escritos, quase como histórias de formação, que resgatam conflitos da infância, no olhar de personagens jovens, em um locus que é uma cidade do interior, o campo, as tradições, o peso e a presença da família.

Encontro você no oitavo round, de Caê Guimarães.

Um boxeador, e poeta de gaveta, já no fim de carreira, tem a chance de uma última luta. Mesmo pago para entregá-la, ele não está disposto a seguir esse caminho. O que parece um enredo banal dá lugar a uma obra que mistura as reflexões típicas de esporte popular com uma linguagem e reflexões envolventes.

Insônia, de Graciliano Ramos.

O autor alagoano de obras imperdíveis como Caetés, Vidas Secas e São Bernardo é mestre em reunir a introspecção psicológica, a angústia do indivíduo em uma sociedade marcada pela ganância e pelo interesse, aliado às questões da sua época. A sociedade brasileira do século vinte, o racismo, o autoritarismo, o conservadorismo e o anticomunismo estão presentes de forma crítica nos personagens destes contos.

Coração Subterrâneo, de Olga Savary.

Autora paraense, radicada no Rio de Janeiro, cuja obra poética tem sido resgatada, além de dialogar com a maioria dos autores da geração pós-45, consegue trabalhar com imagens poéticas e reflexões sobre o amor, com originalidade.

Quero colo, de Fabricio Carpinejar.

Autor que consegue atingir uma obra poética e crônicas de qualidade e ainda transitar pelos canais de comunicação de massa. Carpinejar margeia a crônica de auto-ajuda, porém seu trabalho tem qualidade diferente, e está focado na recuperação do amor e do afeto, denunciando indiretamente esses tempos de extrema alienação.

Face desfeita, de Venâncio de Oliveira.

Nos seus contos, nos contos curtos, em seus romances e novelas, uma coisa é comum na obra de Venâncio de Oliveira. Mesmo tão jovem, esse economista e militante político de Londrina (PR) alcançou uma dicção própria. Sua linguagem é cortante, veloz e irônica, carregada de diálogos ágeis, com seus personagens sempre caminhando no limiar da crônica do absurdo.

Edição: Lucas Botelho

fonte: https://www.brasildefatopr.com.br/2021/10/22/dicas-de-livros-literatura-em-tempos-de-crise-e-esperanca

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