Epopeias contemporâneas: histórias dos povos

Como escrever um épico contemporâneo? No campo dos Estudos Literários, levantou-se uma hipótese, que permanece basilar para os debates sobre o gênero, de que a antiga epopeia, em verso, deu lugar ao moderno romance, em prosa. Passou-se das narrativas heroicas e coletivas; para as histórias cotidianas e individuais. O herói sofreu uma transformação e aposentou-se de suas façanhas. Pendurou as chuteiras. O mundo se desencantou.

Recentemente, comecei a ler poemas de Marcus Accioly (1943–2017), escritor que se vinculou ao Movimento Armorial, em Pernambuco. Movimento esse cujo objetivo foi o de criar uma síntese enraizada de arte erudita e de cultura popular nordestina. As realizações mais famosas desse intento foram a peça de teatro Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e o Quinteto Armorial, com sua música de câmara.

Voltando a Accioly, nos últimos meses, comecei a ler poemas seus contidos em Nordestinados (1971) e Latinomérica (2001). São duas obras que, em tempos distintos, e com propostas singulares, na progressão de arte e de vida desse autor, deságuam numa foz épica, homérica, popular, coletiva, que toma outro rumo, diverso da hipótese mencionada da morte da epopeia. Esse é um percurso percorrido na poesia.

No primeiro livro, chamou-me a atenção uma série de poemas que retratam a paisagem, como nestes versos de “Sertão”:

O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.

A paisagem, contudo, não é a-histórica. Nela, acontecem peripécias que envolvem o homem e a terra (ocupada e produtiva), como se pode perceber em “A Mata-Seca”:

Os vestígios da mata
Cobrindo as cocurutas,
E o reflorestamento
Dos engenhos de açúcar.

Já no seu título, Nordestinados prefigura uma relação épico-coletiva, focando-se no eco do destino do povo nordestino, na sua sina e nos seus personagens, indistintos da terra em que pisam as suas alpercatas.

Latinomérica, por sua vez, cujo trocadilho pensa uma América Latina homérica, mistura as formas clássicas da epopeia com formas poéticas modernas. Há uma luta que acontece num ringue de boxe, em vários rounds, os quais seriam equivalentes aos cantos epopeicos. Latinomérica canta a história dos povos latinoamericanos, em suas pugnas contra os colonizadores de ontem e de hoje.

Um dos personagens dessa história é Bolívar, general venezuelano que libertou vários países do jugo espanhol, buscando a unidade política das diversas nações numa grande pátria latino-americana. Accioly o relembra em versos, assim:

Simón (Simón Bolívar) General
Libertador (liberta a dor) liberta
(não mais da Europa) a América Central
e a América do Sul das mãos da América
do Norte (a nova Espanha-Portugal)
que a Grã-Colômbia (ou a Venezuela
Nova Granada e Quito) já não vive
(como um dia viveu contigo) livre.

Bolívar foi um nome próprio, mais que uma biografia, sob o qual estavam se encontrando multidões que resistiram ao império espanhol. Como o destino da América Latina perpassa um problema comum, o poeta brasileiro não deixou de recordar nossa proximidade ibérica ao mencionar o império português, ligado ao castelhano por um hífen. E também que a libertação está inconclusa, pois, além de Bolívar não ter completado seu projeto de unificação (permanecemos fragmentados), ainda não somos livres em relação à América do Norte, os Estados Unidos, que ocuparam o lugar de colonizador dos antigos impérios ibéricos. Durante o século XX, os EUA estiveram ativamente incentivando ditaduras militares por todo continente. Neste terceiro milênio, mantém ainda seu domínio bélico-econômico através da diplomacia do dólar.

Cogitando essas diversas epopeias, existentes, no Nordeste, na América Latina, ou mesmo na África, na Ásia, onde for, em suas lutas seculares contra o latifúndio dos Engenhos de Açúcar, contra as companhias bananeiras caribenhas, contra a Guerra do Ópio britânica, uma épica das narrativas populares ainda é possível. Basta, Musas, refrescar nossa memória, na contracorrente, e na força dos bilhões de seres humanos que anseiam e se insurgem contra um mundo desencantado, submetido.

André Luís de Macedo Serrano é natural de Vila Velha, Espírito Santo. É professor de português e pesquisador na área de Literatura. Escritor estreante, compartilha seus experimentos de minicontos no endereço eletrônico https://medium.com/@macedo.andre92. É autor de Antiquário, livro de contos publicado pela Caravana.

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