‘Amor cruel, amor vingador’ é para fãs de requinte e boas histórias

Os caminhos e descaminhos das relações amorosas são o tema do livro de Maria José de Queiroz, membro da Academia Mineira de Letras
(foto: LUDOVIC MARIN/AFP)

Com nova edição, após anos fora de catálogo, a coletânea “Amor cruel, amor vingador” (Caravana Grupo Editorial) se abre com um brevíssimo prefácio muito sábio e esclarecedor sobre o amor e os amantes, escrito como um recado ao leitor, à maneira de Machado de Assis.

Nele, a autora, Maria José de Queiroz, da Academia Mineira de Letras, alerta: “Não há negar: os trágicos gregos diagnosticaram todos os males da alma”. Aos expoentes da literatura e das ciências que vieram depois, nos séculos seguintes, ela destaca, citando Shakespeare, Dostoievski, Flaubert, Zola e Freud, apenas caberia atualizar os sintomas, porque já estava feita, desde a Antiguidade Clássica, a primeira anamnese, o primeiro diagnóstico de nossas paixões e nossos vícios.

Nas páginas seguintes, o leitor encontra cinco histórias curtas e requintadas, construídas com detalhes surpreendentes e reviravoltas que seduzem o paladar literário mais exigente, mas também agradam aos que buscam a distração da leitura sobre tramas policiais e sobre crimes de resolução mais ou menos complicada.

O que não há aqui, nas histórias de “Amor cruel, amor vingador” são os opostos maniqueístas que o leitor se acostumou a encontrar nos noticiários: do primeiro ao último relato, ninguém é completamente bom ou mau.
Compreender as variações dos tons de cinza e as motivações do herói ou do vilão, dos culpados e dos inocentes torna-se, então, um desafio saboroso diante de cada um dos enigmas que a autora apresenta. Na primeira história do cardápio, “O juramento”, a mais extensa, feita de frases curtas, breves diálogos e revelações que imprimem fôlego e ritmo rápido à leitura, a trama avança pelas variações de caráter e das motivações ocultas nos bastidores de uma investigação policial.

ASSASSINATO

Há um crime: o assassinato de uma viúva endinheirada; e há Pedroso, o detetive que investiga o caso, confiante no princípio de que entre a pobreza e a criminalidade não existe relação de causa e efeito. Assim como acontece nos clássicos da literatura policial, o investigador carrega seus dramas do passado, enquanto descobre as pistas e os percalços dos envolvidos. E não faltam surpresas. No desfecho, nem tudo o que reluz é ouro, mas ainda restará a sombra de uma dúvida sobre quem seria o verdadeiro culpado – dúvida que o leitor compartilha e confirma.

Em “Velho com moça nova”, a trama tem toques de humor picaresco para contar o caso de Antônio, envolvido a contragosto em um enredo de traição e morte. O caso começa com o protagonista a lembrar os conselhos do pai, que soavam como sina anunciada ou confissão de culpa: “Nunca pare nem aceite pousada em casa de velho com mulher moça”. Na aventura do matuto, desrespeitar o conselho foi como cair no redemoinho – ou como desafiar por acidente o anjo Gabriel com a balança do Juízo Final.

CARTA

A terceira história ganha pontos já a partir do título: “Iniciação ao tratado do desespero”. Entra em cena um triângulo amoroso – uma mulher e dois homens, os três jovens universitários – com uma voz feminina narrando a trama entre aventuras ingênuas, algumas referências de filosofia e o tempo que passou rápido e dissolveu em definitivo a aproximação entre eles. O desfecho trágico vem por intermédio de uma carta de uma desconhecida, revelando uma estranha coincidência e a oportunidade para um pequeno e passageiro desespero.

O tom trágico surge novamente com toques involuntários de humor em “Ritinha Chiquê ou A hora do carvoeiro”, com o caso amargo da beata que acaba seduzindo um trabalhador braçal e, em seguida, mergulha nas águas turvas e movediças da crueldade e da vingança. Na última história, “A morte ao pé da letra”, o desfecho trágico é precedido pela calmaria e por promessas de felicidade em 1970, na Sorbonne, mas algo de patológico dos males da alma se instala na trama a partir da recriação de uma figura da mitologia grega, Antígona, de Sófocles, e retornamos aos rompantes do amor e seus avessos.

Esta nova edição de “Amor cruel, amor vingador” vem suprir uma lacuna na extensa obra teórica, poética e ficcional publicada por Maria José de Queiroz, mineira de Belo Horizonte que completou recentemente cinco décadas na Academia Mineira de Letras. O livro teve uma primeira publicação pela Record na década de 1990, mas estava, há anos, fora de catálogo e inacessível, retornando agora pela Caravana Grupo Editorial.

A prosa sofisticada que volta nesta nova edição tem ainda o mérito de contrariar aquele lugar-comum de que não se deve julgar um livro pela capa. O detalhe de “Ghismunda”, pintura do século 17, de Bernardino Mei, que ilustra a nova capa, traduz à perfeição as tramas do amor cruel e vingador que, nas mais variadas e corriqueiras situações, transforma em vítimas os amantes.

*José Antônio Orlando é jornalista, doutorando e mestre em letras pela Fale/UFMG

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